De Fénelon Tartari
“O mal é ausência do bem, como as trevas são ausência da luz.” — Santo Agostinho
“Quem se afoga no próprio reflexo esquece que a água também mata a sede.” — Dito da vila de Porto dos Milagres
PRÓLOGO — O ESPELHO E A VOZ
Desde os primeiros dias de sol sobre Porto dos Milagres, João fora um homem que amava acima de tudo a si mesmo — não por vaidade declarada, mas por um tipo de prazer silencioso, disfarçado de devoção.
Casado com Ecoa, mulher de doçura e fé, e pai de duas filhas tão belas quanto as manhãs do vale, João parecia ter recebido todas as bênçãos do céu. Mas o amor de Ecoa e de suas primogênitas jamais fora suficiente para preencher o abismo entre o homem e o espelho que ele via em si.
João não amava o amor — amava a sensação de poder. Sua maior paixão eram os cavalos. Quando cavalgava, sentia-se Deus. O vento em seu rosto era o louvor; o galope, a oração. Cada passada do animal parecia confirmar sua supremacia sobre a terra e sobre todos os seres. E quanto mais cavalgava, mais acreditava que o universo se curvava sob seus pés. Seu cavalo o adorava como um servo adora o mestre. Era ali, sobre o dorso da fera, que João se via em sua forma mais pura — onipotente.
Mas a vida, sábia em suas ironias, decide punir o excesso com espelho. E o espelho de João viria em forma de fuga: certa manhã, ao despertar, viu que seu cavalo havia desaparecido. O homem que se julgava senhor da natureza sentiu-se nu, impotente. O orgulho ferido falou mais alto que a razão. E para satisfazer o próprio reflexo — para continuar sentindo-se o “eleito” — João roubou o cavalo do vizinho.
Não por necessidade. Mas para manter viva a ilusão do domínio. Era o início da penitência, o começo do reflexo que o consumiria.
I. O CAMINHO DO REFLEXO
João era um camponês de Porto dos Milagres, uma vila levantada entre o rio e o pó, onde o nascer do sol sempre se debruçava sobre a água como quem busca a própria face. Numa manhã tardia, ao dar por falta do cavalo, o pavor venceu a virtude; tomou para si o animal do vizinho e galopou, tentando deixar para trás a urgência e a culpa.
Não há cavalo ágil o bastante para fugir do espelho da alma. Ao primeiro gole d’água do rio, João viu sua imagem ondulada: não era ladrão nos olhos — mas o gesto falava por ele. A voz silenciosa que o conduzia para o bem, essa que a gente costuma confundir com a voz de Deus, murmurou fundo. João cometeu o mal de culpa — a queda interior, o suicídio moral do espírito.
Descoberto, preso, condenado, João experimentou também o mal de pena — a consequência que devolve espelho a quem quebrou o vidro da lei. Foram cinco anos de grades e orações. E, quando a porta da cela se abriu, levou consigo um propósito: voltar a olhar a água sem confundir o próprio rosto com a face do Altíssimo.
Parabéns meu querido