O Laço Vermelho

Por Fénelon Tartari

Autor:  Fénelon Tartari

Ela fazia sexo como quem escova os dentes

Na maioria das vezes com pressa. Sem pensar, sem prazer.

Digo sem pensar ali, naquele instante.

Porque pensamentos era o que não faltava;  sobre os afazeres do dia seguinte, compromissos de trabalho, os filhos, a casa…

Às vezes doía e sangrava também. Igual quando sem querer, esbarramos a cabeça da escova com força, bem no meio da gengiva.

Dói pra caralho e a gente fica com raiva. Ela também ficava muito raivosa nessas horas.

Só que ela não podia dizer palavrões. Sua raiva havia de ser muda.

Antonieta tinha seis filhos e estava grávida do próximo. Sua primeira menina; se chamaria Angelita, em homenagem a sua avó materna.

Ela queria que sua filha fosse batizada na paróquia do vilarejo.

Não porque ela era religiosa ou acreditava em Deus. Mas porque ela tinha um plano.

Um plano que ela arquitetava desde o dia em que ficou grávida novamente sem desejar. E sem desejo.

Um plano que a faria para sempre se livrar daquela escova de dentes velhas de cabeça violenta.

Que nunca cuidou de seus dentes e sua boca da forma como deveria, deixando-os quase apodrecer. Repleto de hematomas.

Um plano que a faria não ter dentes mais brancos, reluzentes. Ela não se importava com isso. Aliás, nunca se importou com status algum.

Antonieta estava disposta a ficar para sempre sem escovar os dentes, se fosse necessário.

O principal era ela curar as feridas de sua boca, que latejavam em carne viva há anos. Não aguentava mais.

E finalmente chegou o dia 1 de Janeiro de 2025. Angelita nasceu com três quilos e quinhentos gramas.

Olhos negros como o da mãe. Cabelo ruim igual do pai.

Foi parto normal. Se doeu?Nem se quer perto da dor da escova de dentes. Fichinha. Lidou com os pés nas costas.

Havia chegado o grande dia.

Angelita estava vestida igual a uma boneca. Um vestido de crochê costurado por Antonieta. Sapatinhos também.

Tudo da cor amarelo bebê, contrastando com sua pele bombom sonho de valsa.

E sobre sua cabeça, um lenço vermelho proposital.

Uma mensagem de Antonieta para todos.

Pare. Já deu. Acabou.

Ponto final.

(esse era apenas o começo de uma doce vingança, ou melhor, uma apetitosa justiça que estava apenas começando…)

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Amanda Melchiori
Amanda Melchiori
1 dia atrás

Intrigante! Quero saber mais!

Chica de Oliveira
Chica de Oliveira
1 dia atrás

Inescrupuloso! Antonieta faça justiça!

Fatima Fontes
Fatima Fontes
21 horas atrás

Fiquei curioss

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